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De mártir a herói e de herói a celebridade
//Por Pamela Lima - Friday, 13 de November de 2009 às 14:19

Muitas formas de heróis foram apresentados aos leitores ao longo da história da literatura, desde os épicos gregos aos quadrinhos modernos. E Harry é, sem dúvida, um deles.
É sobre as múltiplas faces do nosso bruxo preferido (o herói, o mártir e a celebridade) que Luis Nakajo disserta nessa análise. Quem, assim como nós, estava sentindo falta das ótimas colunas do Luis, leia e comente!

Por Luis Nakajo

Era um garoto que, como eu, amava calça jeans, camiseta e a liberdade de zapear a tevê a cabo quando os tios davam o fora. Esse é o Harry Potter que conhecemos, aos onze anos: um garoto com interesses próprios, comum, apagado, trouxa, individualista – doce, agradável, mas, sim, senhores, individualista. Que detesta as roupas dez números maiores herdadas de seu primo Duda Dursley.

É o que torna Harry uma personagem empática: o seu eu, o seu jeitinho. Ele é tão parecido com a gente… com gente de verdade…

Mas Harry não é apenas uma pessoa… ele é, para sua glória e desgraça, um herói. Ele é forçado a se desfazer do interesse próprio pouco a pouco até que, quando vê, está se arriscando pelos amigos e, mais que isso, pela vitória de uma verdade maior.

Mas restringir Harry ao papel de herói abnegado é reduzir a ópera a apenas uma linha. Há pelo menos dois outros grandes papéis que ele desempenha na série: mártir e celebridade. Essas duas figuras se situam em dois extremos de uma escala que o polonês Zygmunt Bauman enxerga ao longo da história do Ocidente. Em seu belíssimo ensaio, “De mártir a herói e de herói a celebridade”, Bauman defende que essa é uma história que parte do sofrimento como forma suprema de vitória e que culmina no bem-estar individual que não quer nada com isso.

NÓS, INDIVÍDUOS

Se para nós já é meio doido sair lutando contra um adversário insano como Voldemort, imagine o que dizer de um mártir, de um Harry que se oferece de braços abertos para a morte… Pode ser lindo, literariamente excitante, inspirador, mas quem faria algo do gênero?
Na nossa mente, é absurdo lógico, piração satânica morrer por uma causa. Pra quê ir para a fogueira, morrer empalado numa cruzada, se explodir numa mesquita, se eu posso viver minha vida numa boa, sem nenhuma ousadia ou sofrimento, se tenho ao meu alcance se não o luxo, pelo menos o necessário para viver com certo conforto até os oitenta, noventa anos?

Nossos valores são incompatíveis com o sacrifício do eu. Nascemos numa sociedade que honra o desejo pessoal imediato e o potencial da pessoa, não a vitória da causa islamista, a reconquista da Terra Santa ou a vitória de seu país na guerra. Amamos, acima de tudo, correr atrás dos nossos desejos, de nos realizar como profissionais, como amantes, como leitores, como ouvintes de música, como consumidores…

É tudo isso que J K Rowling questiona através da figura tripla de Harry.

MÁRTIR

O grande contra-senso do mártir é que ele morre e sua morte não tem sequer intenção “tática”. Harry se oferece à morte e isso é ilógico, porque ainda falta destruir uma Horcruxe para tornar seu sacrifício (usando da lógica da guerra) um ato produtivo. Voldemort, como é de costume, joga sujo e dá um ultimato: ou ele aparece, ou ele explode Hogwarts.

“Os mártires são pessoas que enfrentam desvantagens esmagadoras”, diz Bauman. Morrer é o caminho mais honesto para não renunciar sua identidade e os valores que ele abraça.
Harry é mártir também por não contar com o entendimento da multidão, bruxa e trouxa, que se beneficiará de seu sacrifício. No máximo, de acordo com Bauman, talvez ele consiga reconhecimento por sua nobre ação num futuro longínquo – mas somente se voar pelos ares por causa de um Avada Kedavra.

O mártir morre representando a resistência de uma minoria esmagada pela multidão ensandecida. É Dobby quem diz: Harry é a bandeira de esperança para as minorias pisoteadas do mundo bruxo, exatamente porque venceu o lorde das trevas, o símbolo dos fanáticos da superioridade sangue-puro. E ele vence exatamente como faz o mártir, exatamente como morreria um elfo doméstico: sendo atacado numa situação desfavorável. Sem lutar.

E isso acontece duas vezes: quando Harry é um bebê e quando Harry se oferece ao abraço da morte no final das Relíquias. Harry vence Voldemort nas duas ocasiões, quando este ergue a arma contra o bebê e contra o homem… sem que “a vítima” levante um dedo sequer!

A imagem é reveladora: quem mata acaba se matando, porque quem vence é quem é atacado. É exatamente esse o princípio do martírio (a lógica da resistência pacífica de Gandhi, que usa a mídia para fazer o tiro do inimigo sair pela culatra).

Quando, na cena da clareira, Harry abre mão da vida, ele completa sua jornada de dissolução do ego e vira, como diria Josef Campbell, um herói completo.

O HERÓI DE MIL FACES

Harry Potter se arrisca para salvar Gina do basilisco, para salvar Rony dos sereianos, para tirar Dumbledore da caverna escura, para salvar seu padrinho de Voldemort… a lista é comprida.

Quando todas as outras soluções lhe parecem impráticas, quando nenhuma outra pessoa (geralmente adulta) se mostra à altura, Harry aperta o cinto e assume a responsabilidade: é herói com H maiúsculo.

O Herói é descrito por Josef Campbell como o homem livre do ego, da infantilidade, das leis confortáveis de sua sociedade natal. Ele não depende mais da ação de protetores. O herói passa por mil peripécias, é aprimorado por uma galeria infindável de guias e de inimigos, passa para um mundo em que seus conhecimentos são insuficientes, em que ele tem de ser humilde e aprender a dominar sua ignorância, até que ele alcança uma verdade ou dádiva que deve trazer de volta à sua terra natal, pois isso (tipo o conhecimento das Horcruxes de Voldemort) é de suma importância para que esta mesma sociedade não se extinga.

O herói se transforma no amor à sua comunidade de origem, quando volta a ela, depois de transgredir alguns dos valores que essa mesma sociedade cultiva. Ele vira um redentor, um revolucionário.

Esse é o herói do mito arcaico – e Harry tem bastante disso.
Já a figura do herói moderno é encarnada no soldado da pátria.
Ele sacrifica seu prazer atual (sua vida pacata e comum) em prol de ganhos futuros, priorizando o longo prazo. E mais ainda: ele se sacrifica por ganhos coletivos, priorizando a totalidade (qualquer semelhança com Harry não é coincidência).

Mas soldados não morrem com facilidade (matar é o que eles fazem com maior facilidade…). Esses morrem só quando é muito necessário, quando não há outra saída. Mesmo assim, a morte de um soldado é uma baixa, uma derrota para o seu superior na hierarquia. Aqui já começa a se infiltrar a aversão à morte, que alcança seu auge em nossa modernidade tardia…

CELEBRIDADE

Heróis e mártires não têm espaço na nossa sociedade, afirma Bauman. A sociedade “líquido-moderna”, a sociedade do contato, do consumo, da rapidez, do descarte é uma sociedade que não teme apenas a morte e suas amigas (dor, humilhação), mas também a totalidade e o longo prazo que o herói, principalmente, glorifica.

O que temos são celebridades, uma espécie de herói esvaziado de valor próprio. O herói era cultuado pelo serviço prestado à pátria; a celebridade, brinca Bauman, é o cara que é conhecido por ser famoso, uma redundância.

Para muitos bruxos, consumidores vorazes de Profeta Diário; e para muitos trouxas, consumidores vorazes de mídias menos sofisticadas, Harry (e Radcliffe, e J K Rowling) não passam de rostinhos bonitos/ricos/excêntricos.

Harry Potter é perseguido por Rita Skeeter e tem sua imagem trabalhada ao ponto do ícone: menino com o raio na testa, garoto problema, celebridade. Como Britney Spears, os Simpsons, Zac Efron, Angelina Jolie, Paris Hilton, a galeria anual dos big brothers e fazendeiros… a lista é comprida.

A celebridade manipula a mídia e a mídia manipula a celebridade num jogo de interesses do qual é duro escapar. Se Harry se recusa a dar entrevistas (como faz a reitora da USP, por exemplo), ele cultiva uma imagem de mistério, de charme (ou de intransigência).

Mesmo que não veja as celebridades com bons olhos, Bauman reconhece que ela desempenha um papel social relevante (e, como tal, digno de sua atenção): “Tal como os mártires e heróis, [as celebridades] fornecem um espécie de cola que aproxima e mantém juntos grupos de pessoas que sem elas seriam difusos e dispersos”.

Se você acha que Bauman se refere a um fandom superdedicado em sessenta e tantas línguas, não está muito longe da verdade: o fandom também é uma comunidade interessante de ser estudada sociologicamente – assim como uma nação, um grupo lingüístico ou um império (assim como, de resto, a literatura de massa é um produto interessante de ser estudado pela teoria literária, sem prejuízo algum).

INDICAÇÕES DE LIVRO

Os ensaios de Bauman são bem ricos e claros. No Brasil, seus livros (mais de dez e crescendo numa periodicidade semestral) são lançados pela Jorge Zahar. Como introdução à obra do eminente sociólogo, eu indico, além de seu Modernidade líquida, Amor líquido, que explica muito bem o porquê das paixões contraditórias que infestam o mundo (e que também daria um ensaio interessante, mas enfim…)

A Legenda Áurea é uma compilação de hagiografias (biografias de santos, grande parte deles santos mártires), realizada por Jacopo da Varazze no século 13 e que temos traduzido no Brasil. Além de ter histórias muito edificantes, ela é publicada pela Companhia das Letras, numa edição caprichadíssima: capa dura, papel couché, fitinha pra marcar página… o preço, porém, é um martírio pra qualquer um.

O herói de mil faces do Campbell, é um livrinho azul claro editado no Brasil pela Cultrix (que tem uns títulos esotéricos muito maravilhosos em seu catálogo). Campbell é bem cheio dos misticismos, mas sua interpretação dos mitos de fundação das sociedades indígenas é soberba – de uma qualidade que este texto, numa menção rápida, não faz jus. Um texto sobre o herói de mil faces está sob revisão no momento e daqui uns meses, vocês o terão para ler aqui nas colunas.

Abraço.

Luis Nakajo

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Comentários
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Lilian T. | Friday, 13 de November de 2009

Coluna maravilhosa, Luis!!! :D

Estou com pressa, mas eu realmente adorei. Depois comento com detalhes…

Parabens pela excelente analise!!! :D


bruna potter | Friday, 13 de November de 2009

mtoo bom!!só achei o texto um pouco cansativo de ler! :)


Zula | Friday, 13 de November de 2009

Esta coluna foi tão não-Nakajo. Frases curtas, objetivas, sem comentários internos enriquecedores. Um assunto tão interessante, abordado pela pessoa mais interessante, de uma maneira tão… largada. Acho que faltou, sobretudo, uma conclusão.

Luis, não quero te afastar das colunas! Quero, na verdade, que você volte mais vezes pra se mostrar como realmente se escreve! ;)


Dinuh | Friday, 13 de November de 2009

que chato e cansativo. só


Daniel Mahlmann | Friday, 13 de November de 2009

Que saudade de ver um texto do Luis Nakajo por aqui! Adorei o tema abordado e a forma com a qual, explicando as figuras de mártir, herói e celebridade, você conseguiu encontrar paralelos completamente válidos na série Harry Potter.

As colunas do Potterish, mais do que apenas entreter os leitores, servem também para ensiná-los. Mas isso infelizmente não acontece com todos, porque a pessoa precisa estar apta e aberta para isso. Sinto muito, mas chamar um texto desse de chato e cansativo é apenas tentar disfarçar preguiça de ler ou incapacidade de absorver um material rico de ideias.

Ótima coluna, Luis. Quero ler mais material seu por aqui, hein!

Abraços!


Paty | Friday, 13 de November de 2009

Que saudade de ver um texto do Luis Nakajo por aqui! [2] :D

Que demais, amo os textos do Luis!
Lerei e comentarei logo, mas tinha que dizer isso antes huahuahua


Flávio Jr. | Friday, 13 de November de 2009

Coluna maravilhosa! Abordou muito bem o assunto proposto! Confesso que fiquei bastante extasiado com a forma com que você conduziu a coluna! Escreve MUITO bem!

Ish é Canon = fatão *-*


Rick | Saturday, 14 de November de 2009

Melhor coluna que o Ish já publicou! Parabéns Luis. As linhas de raciocínio são absolutamente coesas e é realmente bom quando podemos ler algo sobre um assunto que gostamos (Harry Potter, no nosso caso aqui) que seja intelectualmente interessante.

Gostei das idéias do Bauman … vou ler algo dele a respeito disso tudo com certeza! Achei o texto realmente denso (comparado com algo “fácil” de ler como a maioria daqui está [HP]), mas também achei um texto bastante fluído. Parabéns! Descreve o Harry com olhares que muitos não haviam notado antes ainda.

E o que mais merece destaque: as sugestões de leitura! Se todos colunistas fizessem isso em seus textos, teríamos uns papos mais bacanas rolando por aqui (nada contra os outros… muito pelo contrário, ADORO as colunas do Ish) …


Laiara -HH | Sunday, 15 de November de 2009

Harry Potter é perseguido por Rita Skeeter e tem sua imagem trabalhada ao ponto do ícone: menino com o raio na testa, garoto problema, celebridade. Como Britney Spears, os Simpsons, Zac Efron, Angelina Jolie, Paris Hilton, a galeria anual dos big brothers e fazendeiros… a lista é comprida.

AMEEI ESSA PARTE
SOH POSSO DIZER, TIROU GRANDÃOO
asdoashdo


Praty | Sunday, 15 de November de 2009

Meu Deus… somado a essa coluna de enxer os olhos (e que, de fato, enxeu os meus) estava escutando o cd “The ultimate Collection” dos Clannad (pra quem não conhece era a banda que Enya fez parte, composta por imãos e tios dela – aliás, músicas maravilhosas).

Coluna simplesmente perfeita… não tenho nada o que falar. 8O Estou preenchida com o que li.

Obridasa, Luis. ♥


Praty | Sunday, 15 de November de 2009

***encher… sorry


Paty | Sunday, 15 de November de 2009

Ah, que coluna maravilhosa. :D
Adoro os textos do Luis, por sempre terem um embasamento legal, boas dicas literárias e todos os pensamentos se encaixarem tão bem…

É claro que adoro todas as colunas ishianas, mas as do Luis Nakajo trazem uma sensação nostálgica para mim, das discussões intensas, do fandom ainda mais vivo… os idosos do Ish entendem o que quero dizer rs

O tema abordado é realmente muito bom.E principalmente na questão de “celebridade”, por vermos o nosso Harry, odiando tudo isso, é estranho perceber como é uma verdade absoluta o seu lado estrela, e como não combina com ele.

Esse conceito de Bauman, mostrando nossa sociedade fútil é realmente triste, por ser tão verdadeiro. Os heróis de hoje não são nada além de bonitos, muitas vezes, não acrescentam em nada… o desejo de mudança, ideal, sonho, está cada vez mais perdido.
Outro ponto interessante é a manipulação da mídia, isso é assustador, de um jeito ou de outro, o “herói” sempre estará em foco, ou por falar ou por negar-se, mesmo que precisem usar métodos Skeeter de “ampliação da verdade”, mas ele estará na mídia, pois sempre tem quem queira saber mais sobre ele, se ao menos esperassem uma revolução, uma palavra de luta vinda deste herói, mas não, é apenas saber fofocas sobre sua vida. :roll:

Adoro ver isso pelos olhos do Harry, que sensação humilhante, saber que tudo sobre você pode ser manipulado e não há muito o que fazer, notar ainda que tudo é para um propósito tão inútil.

A questão do sacrificio já é mais complexa, não sei se viver com a vergonha, com a covardia é tão bom assim para a maioria, tão compreensível, não é para mim, pelo menos.
A atitude do Harry é bem mais plausível pois eu “faria” a mesma coisa, é claro que tudo depende das circunstâncias, mas se sacrificar ainda é bem visto por alguns, creio.De qualquer forma, a maneira como Jo mostra esse desprendimento do seu herói é inspiradora.

Realmente, Harry é um “HERÓI DE MIL FACES”, o que o tornou tão amado e complexo, o que faz com que ainda, depois de tudo resolvido, tenhamos o que discutir sobre ele e amá-lo cada dia mais.

Muito boa a coluna, tema maravilhoso.
Parabéns, Luis e não nos deixe tanto tempo sem seus textos. ;)


Isla | Sunday, 15 de November de 2009

Harry não é complexo. Ele odeia o cara que matou os pais dele e quer matá-lo, bem como proteger as pessoas que estão ao seu lado. O que tem de complexo nisso? É um herói clichê, e nada mais. 8)


Juh | Sunday, 15 de November de 2009

Muito boa a coluna. Acredito que JK quis fazer uma critica a mídia que molda todas as celebridades hoje em dia (vide Ronaldinho).

Harry não é celebridade. Ele carregou um fardo muito grande durante toda a sua vida, mostrou coragem que muitos não tiveram, deu a cara a tapa no confronto final. Ele é herói. Sim, sem tirar nem por.



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